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TESTE TEXTO

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Sete horas da manhã de um domingo ensolarado. A praça, vazia ainda. Os atletas tiram um dia de descanso, os militantes da saúde aproveitam o feriado para dormir mais um pouco na cura de uma eventual ressaca. A praça do domingo cedo sobra para os insones, os velhos, os cachorros sem dono e algum bêbado derrubado. Já me disseram que andar sem documentos é perigoso: se eu tiver um ataque, quem vai saber quem eu sou? Quem vai poder avisar minha família? Estava eu na praça sem documentos, sem celular. Numa curva vi um carro parado e duas pessoas dentro. Olhei distraída e pelos vidros fechados vi uma garotinha e um rapaz conversando. Ela sorria timidamente, o corpo um pouco encurvado na pose de adolescente que ainda não aprumou, que ainda não sabe que já é bonita. Camiseta branca justa mostrava peitinhos pequenos.
O rapaz, sorridente, meio inclinado para ela. Tio? Continuei minha caminhada cadê a mãe da menina? O que estaria ela fazendo com um tio todo sorridente às sete horas da manhã de domingo numa praça vazia, dentro de um carro fechado? Nem documentos, nem celular para chamar a polícia, nem autoridade (vestida de moletom e tênis) para bater no vidro do carro e pedir documentos do tio e da mocinha. Quando retornei ao mesmo lugar, depois de uma grande volta, o carro continuava lá, a menina do lado de fora: mais magrinha ainda, mais encurvada, sorridente. Onde a mãe da garota? Na terceira volta não vi mais ninguém e sem documentos nem autoridade voltei para casa. Ao abrir o portão, um passarinho caído, jogado no chão, deve ter batido no vidro. Devagar me aproximei para jogar água na sua cabecinha, ele assustou e saiu voando aos tropeções, passarinho também tropeça, vai que morreu lá adiante. Deprimidíssima na manhã de domingo, só me restou não matar uma aranha vermelha feito fogo que atravessou meu caminho.

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