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Tempo de camisolinha, Mario de Andrade, in contos novos

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“A feiura dos cabelos cortados me fez mal. Não sei que noção prematura de sordidez dos nossos atos, ou exatamente, da vida, me veio nessa experiência da minha primeira infância. O que não pude esquecer, e é minha recordação mais antiga, foi, dentre as brincadeiras que faziam comigo para me desemburrar da tristeza em que ficara por me terem cortado os cabelos, alguém, não sei mais quem, uma voz masculina falando: “Você ficou um homem, assim!” Ora eu tinha três anos, fui tomado de pavor. Veio um medo lancinante de já ter ficado homem naquele tamanhinho, um medo medonho, e recomecei a chorar.”
Na segunda frase percebemos que é um adulto falando de sua infância. Algo muito grave aconteceu, algo que o marcou negativamente. Fala com palavras fortes dessa experiência: “noção prematura de sordidez de nossos atos”. O narrador nos remete para a infância dele, aos  três anos, quando lhe foram cortados os cabelos. Uma voz masculina, a do pai possivelmente, ressoa forte, dizendo de sua nova  condição, a de homem.
Ora, um garotinho de três anos guindado à posição de homem! O narrador já ganhou o leitor, apiedado com a situação da criança tão violentamente submetida a um ato arbitrário do pai. A  voz da criança encarna na fala do narrador:
...” um medo lancinante de já ter ficado homem daquele tamanhinho, um medo medonho, e recomecei a chorar”,
fala que seduz definitivamente o leitor, que fica convencido do ato despótico ao qual a criança foi assujeitada. O uso do diminutivo  “tamanhinho” ajuda a constituir para o leitor,  a voz da criança pequena.
Meus cabelos eram muitos bonitos, dum negro quente, acastanhado nos reflexos. Caíam pelos meus ombros com cachos gordos, com ritmos pesados de molas de espiral. Me lembro de uma fotografia minha desse tempo, que depois destruí por uma espécie de polidez envergonhada… Era já agora bem homem e aqueles cabelos adorados na infância, me pareceram de repente como um engano grave.
É nítido o prazer com que o narrador fala de seus cabelos, prazer que se transforma em “polidez envergonhada” e depois em “engano grave”, que o faz destruir uma foto daquele tempo. Esta mudança de humor reforça no leitor o sentimento de piedade em relação ao que aconteceu lá atrás, na infância, ao mesmo tempo em que nos faz perceber o quão grave foi para ele este acontecimento. Talvez à violência do ato cometido contra ele corresponda à destruição da foto.
“Os traços não eram felizes, mas na moldura da cabeleira havia sempre um olhar manso, um rosto sem marcas, franco, promessa de alma sem maldade. De um ano depois do corte dos cabelos ou pouco mais, guardo outro retrato tirado junto com Totó, meu mano. Ele, quatro anos mais velho que eu, vem garboso e completamente infantil numa bonita roupa marinheira; eu, bem menor, inda conservo uma camisolinha de veludo, muito besta, que minha mãe por economia teimava utilizar até o fim. Antes do corte dos cabelos, tudo era ameno, bom, sem maldade. Depois do corte dos cabelos, um homem deveria usar camisolinha?!”
A mãe, por economia, força a criança? Ou será que é o modo dela manter seu filhinho ainda criança?
” Guardo esta fotografia porque se ela não me perdoa do que tenho sido, aos menos me explica. Dou a impressão de uma monstruosidade insubordinada. Meu irmão, com seus oito anos é uma criança integral, olhar vazio de experiência, rosto rechonchudo e lisinho, sem caráter fixo, sem malícia, a própria imagem da infância.”
A imagem da infância remete a um mundo de perfeição, onde nada falta, e de onde nosso narrador foi expulso. Expulsão do paraíso? Tema que se repete em Vestida de Preto, outro conto da mesma obra, narrada em 1ª pessoa.
“Eu, tão menor, tenho esse quê repulsivo do anão, pareço velho. E o que é mais triste, com uns sulcos vividos descendo das abas voluptuosas do nariz e da boca larga, entreaberta num risinho pérfido. Meus olhos não olham, espreitam. Fornecem às claras, com uma facilidade teatral, todos os indícios de uma segunda intenção.”
Essa “expulsão do paraíso” o transforma numa espécie de monstro repulsivo, odioso. Ao mesmo tempo que suscita no leitor piedade por tamanho sofrimento, começamos a nos perguntar se não há um certo excesso. Será que o narrador, no desejo de nos fazer cúmplices, não estaria exagerando toda a situação? E começamos a nos perguntar se teria sido este, de fato, o sentimento da criança, ou o narrador adulto, que nos quer completamente convencidos de sua “tragédia”, pinta esse episódio com tintas muito fortes?
“Não sei por que não destruí em tempo também essa fotografia, agora é tarde. Muitas vezes passei minutos compridos me contemplando, me buscando dentro dela. E me achando. Comparava-a com meus atos e tudo eram confirmações. Tenho certeza que essa fotografia me fez imenso mal, porque me deu muita preguiça de reagir. Me proclamava demasiadamente em mim e afogou meus possíveis anseios de perfeição. Voltemos ao caso que é melhor . Toda a gente apreciava os meus cabelos cacheados, tão lentos! e eu me envaidecia deles, mais que isso, os adorava por causa dos elogios. Foi por uma tarde, me lembro bem, que meu pai suavemente murmurou uma daquelas suas decisões irrevogáveis: “É preciso cortar os cabelos desse menino.” Olhei de um lado, de outro, procurando um apoio, um jeito de fugir daquela ordem, muito aflito. Preferi o instinto e fixei os olhos já lacrimosos em mamãe. Ela quis me olhar compassiva, mas me lembro como se fosse hoje, não aguentou meus últimos olhos de inocência perfeita, baixou os dela, oscilando entre a piedade por mim e a razão possível que estivesse no mando do chefe. Hoje, imagino um egoísmo grande da parte dela, não reagindo. As camisolinhas, ela as conservaria ainda por mais de ano, até que se acabassem feitas trapos. Mas ninguém percebeu a delicadeza da minha vaidade infantil. Deixassem que eu sentisse por mim, me incutissem aos poucos a necessidade de cortar os cabelos, nada: uma decisão à antiga, brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite às revoltas intimas: “é preciso cortar os cabelos desse menino”.
O tom do relato produz no leitor um efeito de compaixão pela criança tão desamparada diante da “decisão irrevogável” do pai e a ausência covarde da mãe. Covardia aliada ao egoísmo pelo fato dela manter a camisolinha, por uma questão de economia. A intenção de captação de benevolência é clara e bem sucedida. A condição da criança no seu espaço social é inequívoca: uma família tradicional, onde o pai exerce o papel de chefe incontestável ao qual o resto da família deve obediência.
“Uma decisão à antiga, brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite às revoltas íntimas”.
Aqui ouvimos a voz do narrador adulto, numa linguagem sofisticada, tomando as dores do menino. O efeito é bem sucedido; mais uma vez o leitor está ao lado do narrador. A forma é competente. Sua fala funciona como uma legenda à imagem da criancinha pedindo socorro:
“Olhei de um lado, de outro, procurando um apoio, um jeito de fugir daquela ordem, muito aflito”. 
“Tudo o mais são memórias confusas ritmadas por gritos horríveis, cabeça sacudida com violência, mãos enérgicas me agarrando, palavras aflitas me mandando com raiva entre piedades infecundas, dificuldades irritadas do cabeleireiro que se esforçava em ter paciência e me dava terror. E o pranto, afinal. E no último e prolongado fim, o chorinho doloridíssimo, convulsivo, cheio de visagens próximas atrozes, um desespero desprendido de tudo, uma fixação emperrada em não querer aceitar o consumado.”
Chorinho nos remete à fala da criancinha no seu desamparo. Novamente a captação da benevolência competentemente sublinhada pelo nível de linguagem que traduz de modo insofismável os horrores e a violência sentida pelo menino.
E o meu passado se acabou pela primeira vez. Só ficavam como demonstrações desagradáveis dele, as camisolinhas. Foi dentro delas, camisolas de fazendinha barata(a gloriosa, de veludo, era só para as grandes ocasiões), foi dentro ainda das camisolinhas que parti com os meus pra Santos, aproveitar as férias do Totó sempre fraquinho, um junho.
A primeira saída do paraíso, ponto de virada na vida. Tema que se repete em Vestida de Preto, outro conto da mesma obra, narrada em 1ª pessoa. Pela enunciação, podemos esperar outras saídas do paraíso? O narrador sente-se preso a uma situação que lhe desagrada, pois já deixou de ser criancinha. Não foi esse o decreto do pai? Aqui há a evidência de um conflito entre o pai e a mãe: enquanto o primeiro percebe que o filho está crescendo e que não lhe cabem mais os cachos longos de menina, a mãe mantém a camisolinha como último bastião de sua condição de mãe de um bebezinho.
Havia aliás outra razão mais tristonha pra essa vilegiatura aparentemente festiva de férias. Me viera uma irmãzinha aumentar a família e parece que o parto fora desastroso, não sei direito. . . Sei que mamãe ficara quase dois meses de cama, paralítica, e só principiara mesmo a andar premida pelas obrigações da casa e dos filhos. Mas andava mal, se encostando nos móveis, se arrastando, com dores insuportáveis na voz, sentindo puxões nos músculos das pernas e um desânimo vasto.”
Seria o nascimento da irmãzinha muito mais traumático do que o narrador tenha querido transmitir? Teria essa irmãzinha expulsado nosso pequeno herói do paraíso, juntamente com os cachos cortados? Teria o nascimento da irmãzinha dado força de trauma aos cachos cortados? De qualquer modo, tanto um acontecimento quanto outro, marcam um momento de transição: o menininho não é mais o caçula e o corte dos cachos deixa uma marca indelével, aliás, várias: a saída da infância, a presença do pai com sua decisão inexorável, a separação mãe e filho, o nascimento de um outro que vai ocupar a mãe. É irresistível não apelarmos à psicanálise. A castração simbólica se configura em toda sua dimensão: a entrada do pai expulsando o menino da relação excludente com a mãe, na figura dos cachos cortados.
“Menos tratava da casa que se iludia, consolada por cumprir a obrigação de tratar da casa. Diante da iminência de algum desastre maior, papai fizera um esforço espantoso para o seu ser que só imaginava a existência no trabalho sem receio, todo assombrado com os progressos financeiros que fazia e a subida de classe. Resolvera aceitar o conselho do médico, se dera férias também, e levara mamãe aos receitados banhos de mar. Isso foi, convém lembrar, ali pelos últimos anos do século passado, e a praia do José Menino era quase um deserto longe. Mesmo assim, a casa que papai alugara não ficava na praia exatamente, mas numa das ruas que a ela davam e onde uns operários trabalhavam diariamente no alimento de um dos canais que carreavam o enxurro da cidade para o mar do golfo. Aí vivemos perto de dois meses, casão imenso e vazio, lar improvisado cheio de deficiência, a que o desmazelo doentio de mamãe ainda melancolizava mais, deixando pousar em tudo um ar de mau trato passagem.”
A melancolia da mãe é traduzida no desleixo da casa. O narrador nos conta de um cenário
“imenso e vazio, um lar improvisado cheio de deficiência, um desmazelo doentio da mãe”.
A depressão pós parto da mãe se alia a do menino,  expulso de um lugar de proteção,  jogado no grande mundo melancólico. O menininho fala como a mãe começa a se recuperar, como voltaram suas cores, o quanto o pai ficou mais camarada e do pavor que ele, o menino, tem do mar,
“de águas vivas, cheio de ameaças impiedosas, apesar da companhia agora deliciosa e faladeira de papai” .
“Os outros que fossem passear, eu ficava no terreno maltratado da casa, algumas árvores frias e um capim amarelo, nas minhas conversas com as formigas e o meu sonho grande. Ainda apreciava mais ir até à borda barrenta do canal, onde os operários me protegiam de qualquer perigo. Papai é que não gostava muito disso não, porque tendo sido operário um dia e subido de classe por esforço pessoal e Deus sabe lá que sacrifícios, considerava operário má companhia pra filho de negociante mais ou menos.”
O garotinho encontra nos operários a proteção que não encontra no pai. Uma pequena atitude de vingança? A hipótese pode ser reforçada pelo fato do pai também ter sido operário, mas, que agora, mesmo em condição superior, não é capaz de proteger o filho.
“Porém mamãe intervinha com o “deixa ele!” de agora, fatigado, de convalescente pela primeira vez na vida com vontades; e lá estava eu dia inteiro, sujando a barra da camisolinha na terra amontoada do canal, com os operários.”
O “deixa ele” da mãe chegou tarde, não tem mais efeito de cumplicidade. Encontramos o garotinho “sujando a barra da camisolinha”. Seria um movimento de separação com a mãe que o traiu? Agora como sujeito da ação e não mais como assujeitado?
“Vivia sujo. Muitas vezes agora até me faltavam, por baixo da camisola, as calcinhas de encobrir as coisas feias, e eu sentia um esporte de inverno em levantar a camisola na frente pra o friozinho entrar. Mamãe se incomodava muito com isso, mas não havia calcinhas que chegassem, todas no varal enxugando ao sol fraco. E foi por causa disso que entrei a detestar minha madrinha, Nossa Senhora do Carmo. Não vê que minha mãe levara pra Santos aquele quadro antigo de que falei e de que ela não se separava nunca quando me via erguendo a camisola no gesto indiscreto, me ameaçava com a minha encantadora madrinha: — “Meu filho, não mostra isso, que feio! repare: sua madrinha está te olhando na parede!” Eu espiava pra minha madrinha do Carmo na parede, e descia a camisolinha, mal convencido, com raiva da santa linda, tão apreciada noutros tempos, sorrindo sempre e com aquelas mãos gordas e quentes. E desgostoso ia brincar no barro do canal, botando a culpa de tudo no quadro secular. Odiei minha madrinha santa.”  
Ambivalência em relação à madrinha santa, que lhe “exige” atitude de obediência não mostrando as vergonhas e o desejo de desobedecer, assumindo sua nova condição de menino, portador de um pênis. Novamente a mãe tentando segurar sua criancinha que está crescendo. O narrador nos convence do conflito do menino, entre a madrinha linda e o desejo de desobedecer, como uma forma de afirmar sua nova condição.
“Pois um dia, não sei o que me deu de repente, o desígnio explodiu, nem pensei largo correndo os meus brinquedos com o barro, barafusto porta a dentro, vou primeiro espiar onde mamãe estava. Não estava. Fora passear na praia matinal com papai e Totó. Só a cozinheira no fogão perdida, conversando com a ama da Mariazinha nova. Então podia! Entrei na sala da frente, solene, com uma coragem desenvolta, heroica, de quem perde tudo mas se quer liberto. Olhei francamente, com ódio, a minha madrinha santa, eu bem sabia, era santa, com os doces olhos se rindo para mim. Levantei quanto pude a camisola e empinando a barriguinha, mostrei tudo pra ela. “Tó! que eu dizia, olhe! olhe bem! tó! olhe bastante mesmo!” E empinava a barriguinha de quase me quebrar pra trás”.
Ambivalência resolvida, o garotinho consegue livrar-se do jugo do medo de retaliação, do medo da punição.
“Mas não sucedeu nada, eu bem imaginava que não sucedia nada. . . Minha madrinha do quadro continuava olhando pra mim, se rindo, a boba, não zangando comigo nada. E eu saí muito firme, quase sem remorso, delirando num orgulho tão corajoso no peito, que me arrisquei a chegar sozinho até a esquina da praia larga. Estavam uns pescadores ali mesmo na esquina, conversando, e me meti no meio deles, sempre era uma proteção.”
E aí o narrador conta que:
um dos pescadores pegara três lindas estrelas-do-mar e brincava com elas na mão, expondo-as ao solzinho. E eu fiquei num delírio de entusiasmo por causa das estrelas-do-mar. O pescador percebeu logo meus olhos de desejo, e sem paciência pra ser bom devagar, com brutalidade, foi logo me dando todas. — Tome para você, que ele disse, estrela-do-mar dá boa sorte. — O que é boa sorte, hein? Ele olhou rápido os companheiros porque não sabia explicar o que era boa sorte. Mas todos estavam esperando e ele arrancou meio bravo: — Isto é. . . não vê que a gente fica cheio de tudo. . . dinheiro, saúde. . . Pigarreou fatigado. E depois de me olhar com um olho indiferentemente carinhoso, acrescentou mais firme: — Seque bem elas no sol que dá boa sorte. Isso nem agradeci, fui numa chispada luminosa pra casa esconder minhas estrelas-do-mar. Pus as três ao sol, perto do muro lá no fundo do quintal onde ninguém chegava, e entre feliz e inquieto fui brincabrincar no canal. Mas quem disse brincar! me dava aquela vontade amante de ver minhas estrelas e voltava numa chispada luminosa contemplar as minhas tesoureiras de boa sorte. A felicidade era tamanha e o desejo de contar minha glória, que até meu pai se inquietou com o meu fastio no almoço. Mas eu não queria contar. Era um segredo contra tudo e todos, a arma certa da minha vingança, eu havia de machucar bastante Totó, e quando mamãe se incomodasse com o meu sujo, não sei não. . . mas pelo menos ela havia de dar um trupicão de até dizer “ai”, bem feito! As minhas estrelas-do-mar estavam lá escondidas junto do muro me dando boa sorte. Comer? pra que comer? elas me davam tudo, me alimentavam, me davam licença pra brincar no barro, e se Nossa Senhora, minha madrinha, quisesse se vingar daquilo que eu fizera pra ela, as estrelas me salvavam, davam nela, machucavam muito ela, isto é. . . muito eu não queria não, só um bocadinho, que machucassem um pouco, sem estragar a cara tão linda da pintura, só pra minha madrinha saber que agora eu tinha a boa sorte, estava protegido e nem precisava mais dela, tó! ai que saudades das minhas estrelas-do-mar! ”
Com o presente que recebe, o menininho recupera TUDO que havia perdido. As estrelas do mar o protegem, alimentam, defendem de todas as intempéries da vida, o vingam de todas as injustiças sofridas: os cachos cortados, o pai autoritário que o ameaça e não o protege, a traição da mãe, da madrinha linda que também não o protege, só sorri, do irmão Totó. As estrelas do mar o reinserem no paraíso perdido, garantindo vida eterna ao menino que não quer crescer e a quem não vai faltar nada.
“Mas não podia desistir do almoço pra ir espiá-las, Totó era capaz de me seguir e querer uma pra ele, isso nunca! — Esse menino não come nada, Maria Luísa! — Não sei o que é isso hoje, Carlos! Meu filho, coma ao menos a goiabada. . . Que goiabada nem mané goiabada! eu estava era pensando nas minhas estrelas, doido por enxergá-las. E nem bem o almoço se acabou, até disfarcei bem, e fui correndo ver as estrelas-do-mar. Eram três, uma menorzinha e duas grandonas. Uma das grandonas tinha as pernas um bocado tortas para o meu gosto, mas assim mesmo era muito mais bonita que a pequetitinha, que trazia um defeito imenso numa das pernas, faltava a ponta. Essa decerto não dava boa sorte não, as outras é que davam: e agora eu havia de ser sempre feliz, não havia de crescer, minha madrinha gostosa se rindo sempre, mamãe completamente sarada me dando brinquedos, com papai não se amolando por causa dos gastos. Não! a estrela pequenina dava boa sorte também, nunca que eu largasse de uma delas! Foi então que aconteceu o caso desgraçado de que jamais me esquecerei no seu menor detalhe. Cansei de olhar minhas estrelas e fui brincar no canal. Era já na hora do meio-dia, hora do almoço, da janta, do não sei o quê dos operários, e eles estavam descansando jogados na sombra das árvores. Apenas um porém, um portuga magruço e bárbaro, de enorme bigodões, que não me entrava nem jamais dera importância pra mim, estava assentado num monte de terra, afastado dos outros, ar de melancolia. Eu brincava por ali tudo, mas a solidão do homem me preocupava, quase me doía, e eu rabeava umas olhadelas para a banda dele, desejoso de consolar. Fui chegando com ar de quem não quer e perguntei o que ele tinha. O operário primeiro deu de ombros, português, bruto, bárbaro, longe de consentir na carícia da minha pergunta infantil. Mas estava com uns olhos tão tristes, o bigode caía tanto, desolado, que insisti no meu carinho e perguntei mais outra vez o que ele tinha. “Má sorte” ele resmungou, mais a si mesmo que a mim. Eu porém é que ficara aterrado. Minha Nossa Senhora! aquele homem tinha má sorte!”
O protagonista sabia o que era sorte, tinha vivido na própria experiência subjetiva. Sorte era TUDO e má sorte era o NADA. A fala do operário catapultou o garotinho ao seu estado anterior de indigência.
“Aquele homem enorme com tantos filhinhos pequenos e uma mulher paralítica na cama! . . . E no entanto eu era feliz, feliz! e com três estrelinhas-do-mar pra me darem sorte. . . É certo: eu pusera imediatamente as três estrelas no diminutivo, porque se houvesse de ceder alguma ao operário, já de antemão eu desvalorizava as três, todas as três, na esperança desesperada de dar apenas a menor. Não havia diferença mais, eram apenas três “estrelinhas”-do-mar. Fiquei desesperado. Mas a lei se riscara iniludível no meu espírito: e se eu desse boa sorte ao operário na pessoa da minha menor estrelinha pequetitinha? . . . Bem que podia dar a menor, era tão feia mesmo, faltava uma das pontas, mas sempre era uma estrelinha-do-mar. Depois: o operário não era bem vestido como papai, não carecia de uma boa sorte muito grande não. Meus passos tontos já me conduziam para o fundo da quinta fatalizadamente. Eu sentia um sol de rachar completamente forte. Agora é que as estrelinhas ficavam bem secas e davam uma boa sorte danada, acabava duma vez a paralisia da mulher do operário, os filhinhos teriam pão e Nossa Senhora do Carmo, minha madrinha, nem se amolava de enxergar o pintinho deles. Lá estavam as três estrelinhas, brilhando no ar do sol, cheias de uma boa sorte imensa. E eu tinha que me desligar de uma delas, da menorzinha estragada, tão linda! justamente a que eu gostava mais, todas valiam igual, porque a mulher do operário não tomava banhos de mar? mas sempre, ah meu Deus que sofrimento! eu bem não queria pensar mas pensava sem querer, deslumbrado, mas a boa mesmo era a grandona perfeita, que havia de dar mais boa sorte pra aquele malvado de operário que viera, cachorro! dizer que estava com má sorte. Agora eu tinha que dar pra ele a minha grande, a minha sublime estrelona-do-mar. . .!”
Neste longo monólogo interior, vivemos com o menininho o sofrimento e a dor de sair de seu estado de proteção, de um mundo onde só existia ele e seu bem estar. Tão pequeno e já tão sensível ao outro, tão solidário aos supostos padecimentos do operário, que imaginariamente vive as mesmas agruras pelas quais o protagonista passou. O leitor mais uma vez tem confiança no discurso proferido, há um reconhecimento por parte do leitor, nas angústias da criança. A mulher paralítica, o banho de mar que ela não pode tomar, a madrinha que não se importa de ver o pintinho dos filhos do operário: numa linguagem que traduz as aflições da criança aterrada pela má sorte do operário, o narrador nos transporta para o mundo angustiado da criança, onde todas as marcas de desvalia se empilham, uma atrás das outras, num sumário de tristezas e desamparo.
“Eu chorava. As lágrimas corriam francas listrando a cara sujinha. O sofrimento era tanto que os meus soluços nem me deixavam pensar bem. Fazia um calor horrível, era preciso tirar as estrelas do sol, senão elas secavam demais, se acabava a boa sorte delas, o sol me batia no coco, eu estava tonto, operário, má sorte, a estrela, a paralítica,  a minha sublime estrelona-do-mar! Isso eu agarrei na estrela com raiva, meu desejo era quebrar a perna dela também pra que ficasse igualzinha a menor, mas as mãos adorantes desmentiam meus desígnios, meus pés é que resolveram correr daquele jeito, rapidíssimos, pra acabar de uma vez com o martírio. Fui correndo, fui morrendo, fui chorando, carregando com fúria e carícia a minha maiorzona estrelinha-do-mar. Cheguei pro operário, ele estava se erguendo, toquei nele com aspereza, puxei duro a roupa dele: — Tome! eu soluçava gritado, tome a minha. . . tome a estrela-do-mar! dá. . . dá, sim, boa sorte! . . . O operário olhou surpreso sem compreender. Eu soluçava, era um suplício medonho. — Pegue depressa! faz favor! depressa! dá boa sorte mesmo! Aí, que ele entendeu, pois não aguentava mais! Me olhou, foi pegando na estrela, sorriu por trás dos bigodões portugas, um sorriso desacostumado, não falou nada felizmente que senão eu desatava a berrar. A mão calosa quis se ajeitar em concha para me acarinhar, certo! ele nem media a extensão do meu sacrifício! e a mão calosa apenas roçou por meus cabelos cortados.”
O narrador nos lembra mais uma vez da marca indestrutível que significou a saída do mundo infantil.
“Eu corri. Eu corri pra chorar à larga, chorar na cama, abafando os soluços no travesseiro sozinho. Mas por dentro era impossível saber o que havia em mim, era uma luz, uma Nossa Senhora, um gosto maltratado, cheio de desilusões claríssimas, em que eu sofria arrependido, vendo inutilizar-se no infinito dos sofrimentos humanos a minha estrela-do-mar.”
Venceu a lei da castração: não se pode ter TUDO. Para acedermos a uma vida comunitária, paga-se um preço muito caro e nosso herói pagou sua entrada no mundo de trocas simbólicas: as estrelinhas do mar por um sentimento de solidariedade com os humanos, e ao mesmo tempo, imensa tristeza pela renúncia às estrelinhas, com sua promessa de restauração do paraíso perdido. O sofrimento que a renúncia impôs ao nosso protagonista é ecoada na voz do narrador adulto, que numa visada ao mesmo tempo retrospectiva e de futuro, fala das desilusões e da inutilidade dos sacrifícios para eludir as agruras  da vida, inevitáveis.
Comentários adicionais:
Olavo Bilac (1865- 1918) escreve uma crônica em 1908, em que recorda seus tempos de criança:
(…) nunca fui verdadeiramente menino, nunca fui verdadeiramente moço. Nunca nos deixaram gozar essas duas quadras deliciosas da vida em que o existir é um favor divino. Os nossos avós e nossos pais davam-nos a mesma educação que haviam recebido: cara amarrada, palmatória dura, estudo forçado e escravização prematura à estupidez das fórmulas, das regras e das hipocrisias.(…). É preciso estar quieto! É preciso ser sério, é preciso ser homem!
O jovem é transformado num pequeno velho antes de ter doze anos de idade. Duas ou três décadas depois, Mario de Andrade, em seu conto, Tempo de Camisolinha, nos apresenta um narrador que sofre as mesmas agruras do menino Olavo Bilac:  a criança com pouca voz para os ouvidos surdos dos adultos, tão diferente da criança contemporânea, um tanto estridente.
Até o final do século XIX, e durante as primeiras décadas do século XX, a criança brasileira parece ter continuado a ser vista e tratada como um “projeto de adulto”, desqualificada na sua subjetividade. Adultos em miniatura, com toda a incompetência decorrente de tal status. Nem criança em seu lugar próprio, nem adulto competente em suas funções, a criança ocupava um lugar de não sujeito, apenas apêndice mais ou menos decorativo no cenário familiar. Não é nossa intenção aprofundar tal discussão, mas apenas situar o contexto histórico do Tempo da Camisolinha.
A criança do conto é personagem do narrador adulto, que faz da ingenuidade da fala do menino o artifício para desvelar as contradições e conflitos do cenário familiar, lugar de suas lembranças. Não são lembranças de um adulto oriundas de um passado de décadas, mas de um menino que se presentifica no instante adulto do narrador. Temos a voz da criança, transcrita pelo narrador adulto, num entramado competente e persuasivo.
Quem é o fiador de nossa história? A criança de três anos ou o narrador adulto que retoma a experiência vivida com tal força de convicção que faz o leitor perder o limite de quem fala o quê? Acreditamos na criança, acreditamos no adulto que retoma e revive essas experiências?
Do ponto de vista psicanalítico não teríamos dúvida em dar crédito à criança incorporada na voz do adulto. Reminiscências, conteúdos inconscientes, fantasias, reconstruções, tudo faz parte do material a ser trabalhado, pois parte-se do princípio que este material é atemporal.
Em outras palavras, o tempo do inconsciente, o tempo da memória, realiza-se no presente. O que o analisando traz é verdadeiro e atual do ponto de vista de sua subjetividade.
E na análise literária? Podemos acreditar no narrador adulto que por estratagema tão eficaz e sedutor faz o leitor ver, acreditar e se comover com a criança? Sim, o leitor na criança, embora com certa desconfiança de estar sendo manipulado pelo narrador, mas de qualquer modo a história e o sofrimento do menininho são verossímeis, pois seu modo de dizer o que viveu, o modo de mostrar seu sofrimento, leva o leitor a uma participação imaginária de uma experiência vivida na própria infância.
O uso do lugar comum, o sofrimento da criança diante da incompreensão e da autoridade dos pais, faz o leitor aderir com facilidade ao discurso proferido, em função do tom afetivo. O uso da primeira pessoa facilita essa identificação. O pacto de confiança que o narrador estabelece com o leitor é plenamente cumprido.
Saímos deste conto mais ricos pelo milagre que a boa literatura opera nos corações e mentes dos leitores e admirados com a competência de Mario de Andrade.
Coberto de reconhecimento pelo papel de vanguarda que desempenhou em três décadas, Mário de Andrade morreu em São Paulo, em 25 de fevereiro de 1945.

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