Written by

Minha pele

Contos| Views: 39

Minha mãe nunca me deixou tomar sol, estraga a pele, menina.

Enquanto outras crianças corriam ao ar livre, tomavam banho de mar, de rio, de cachoeira, de chuva, eu ficava na sombra protegida por chapéu, mangas e calças compridas. Quando fiquei mocinha, minha mãe me obrigou a usar luvas.

Sou branca feito a neve, a pele lisa, sem nenhuma marca, as pessoas me olham e ficam ofuscadas.

Minha mãe já morreu; a pele dela era marcada por bexigas e manchas em tons mais ou menos escuros, do marrom claro ao preto retinto. Muito sol, filha.

Ultimamente tenho notado algumas modificações. Há uma semana, pequenas manchas rosadas começaram a salpicar meu corpo.

Cinco dias depois, não só estão se espalhando, mas parecem mais escuras.

De preocupação, não saí mais de casa.

Faz três dias, a pele afrouxou nos braços, principalmente nos cotovelos, mais em um do que no outro.

Hoje amanheci com meu rosto amarfanhado.

Não estou mais acendendo a luz em casa, mantenho as janelas fechadas.

Minha mãe não me contou que existem seres que habitam por baixo de nossa pele, seres sufocados que repentinamente desejam vir à luz.











       

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *