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Meus pelos

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Nasci com uma penugem que cobria todo meu corpo. Lembro de minha mãe me assoprando, os pelos levantavam e faziam cócegas. Eu ria, ela ria, eu espirrava, devia ser o ventinho. Ela me agasalhava. Os cabelos eram secados ao sol,  ficavam amornados e depois frios, quando eu voltava para a sombra. Um gorrinho mantinha o calor. As sobrancelhas desenhadas em arco um pouco mais escuras que os cabelos, os cílios da mesma cor protegiam meus olhos da poeira e seguravam as lágrimas que brotavam, deixando a paisagem chuvosa.

Numa certa idade, começaram a nascer pelos onde até então a pele era branca,  e novos desenhos se fizeram em meu corpo.

Entre a brisa, o calor, o frio, o vento forte, a chuva, a poluição, a neve, meus pelos se adaptaram às várias circunstâncias da minha história, da minha cidade, do meu país.

Tudo que era claro, macio, leve e sedoso deu lugar a uma cobertura escura, áspera, pesada e opaca.

Resolvi me depilar inteira, dos pés à cabeça.

Não quero assistir a um espetáculo que me desagrada.

Minha pele voltou a ser branca e macia. Minha mãe não está mais aqui para me assoprar, mas posso sentir seu hálito morno e começo a rir. Sei que ela está rindo também.

Quando sinto frio, me embrulho em roupas de seda.

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