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A crueldade

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O presente trabalho pretende analisar o tema crueldade no conto “A Causa Secreta”,  publicado por Machado de Assis em 1885, no jornal Gazeta de Notícias,  vindo posteriormente, em 1895, integrar a coletânea Várias Histórias, sobre a qual  afirma Mário Curvello: 

Representa o ápice do contista Machado de Assis, não apenas pelo domínio do gênero, como  também pela unidade imprimida à coletânea. Por trás do tema comum da perversão universal, há um constante diálogo entre escritor e leitor. A atmosfera perversa do volume pressupõe profundo conhecimento da psicologia do leitor e discute a tendência de entregar-se à manipulação de suas emoções, como sujeito e objeto dessa perversão universal. (1982:461).

A crueldade pode ser considerada  como uma das formas da perversão humana. A literatura Machadiana, como arte representativa, aborda  constantemente temas que remetem às paixões e perversões.   Algumas ciências como a filosofia e psicologia preocupam-se não apenas em representar essas perversões, mas  em estudá-las, explicá-las e defini-las. Muitos pensadores da filosofia buscaram definições para a crueldade no ser humano. As conclusões obtidas convergem para o mesmo ponto:  a crueldade é um meio de imposição e manutenção do poder, sendo fruto do meio social e da realidade que circunda o homem. Este, é o único animal com consciência de  seus atos, porém ao mesmo tempo, consciente de que nem sempre é possível fazer modificar a realidade à sua volta. Sendo assim, está suscetível a praticar e também ser vítima da crueldade imposta pela realidade.

Para a psicanálise, a crueldade está ligada à formação da personalidade, sendo temporal, ou seja, natural do indivíduo que nasce, cresce e morre. Ela integra uma das funções vitais que se expressa frente a estímulos de variada natureza, porém, pode ser considerada uma patologia quando é movida por um impulso destrutivo, que opera dentro da personalidade, trazendo satisfação e prazer ao agressor cruel. Nesse sentido, ela funciona para o agressor cruel, como forma de autopreservação, trazendo a noção de que para alimentar-se e sobreviver é preciso destruir, matar, outros seres vivos. A freqüência e o grau das manifestações informam a gravidade da patologia.

O conto “A Causa Secreta” relata a crueldade da personagem Fortunato, que sente prazer na  observação do sofrimento alheio. A crueldade de Fortunato é extensiva a animais e pessoas. Numa casa de saúde, onde é sócio de Garcia, ele observa e lida com os feridos. Nas horas vagas, estuda anatomia e promove sofrimento a cães e gatos. Essas atitudes torturam sua mulher, Maria Luisa, por quem Garcia é apaixonado e apenas se compadece, sem tomar nenhuma atitude para modificar a situação de sofrimento dele e da amada.

O narrador machadiano inicia o conto “A Causa Secreta” numa  tensão que conduzirá ao desfecho. Ele escolhe um  momento crucial na vida das personagens para iniciar a narrativa, o que faz assemelhar-se à configuração estética de uma tragédia grega. O suspense é estabelecido por um “flash Back”,  que gera  curiosidade no leitor.

Há no conto, três momentos cruciais que remetem aos jogos temporais enunciativos criados pelo narrador. No primeiro deles, início do conto, o narrador anuncia as personagens Fortunato, Maria Luisa e Garcia. Relata que estavam juntos numa sala e  há cinco minutos não trocavam uma  só palavra. O casal Fortunato morava em Catumbi,  onde havia uma casa de saúde, que próprio narrador afirma que adiante  explicará. Também ressalta que os personagens estão mortos e sendo assim,  o que os envolve, pode ser contado sem rebuços. O suspense é estabelecido e a  curiosidade do leitor é despertada quando o narrador afirma: “Tinham falado  também de outra coisa, além daquelas três, coisa tão feia e grave, que não lhes deixou gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde” . ( Assis, 1998: 287).

No segundo momento, o narrador promove  uma mudança no tempo cronológico da narrativa. Nota-se: “Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender, é preciso remontar à origem da situação” ( Assis, 1998: 287). A partir do citado início de parágrafo, fica subtendido ao leitor que a revelação que envolve o assunto secreto sobre o qual conversaram as personagens, não será feita sem a volta ao início da história.

O narrador começa a relatar a história, dentro de um tempo enunciativo que remete ao passado da vida das personagens dentro do tempo cronológico da narrativa:

Garcia tinha-se formado médico e ainda na escola,  encontrou Fortunato à porta da Santa casa. Ele ficou impressionado com a figura.  Porém, a casualidade do encontro teria sido esquecida se dias mais tarde os dois não tivessem se encontrado no teatro, onde sob o olhar de  Garcia, o narrador expõe o  singular interesse de Fortunato ao fitar os lances dolorosos que eram encenados.  A atenção de Fortunato fez o estudante suspeitar haver na peça, reminiscências pessoais do vizinho.

A partir de então, o narrador vai, sob do olhar de Garcia,  dando pistas da crueldade imprimida à personalidade da personagem  Fortunato: bengaladas nos cachorros que ficavam ganindo de dor, cuidados exagerados  com um ferido desconhecido, preferência por lidar com os queimados por soda cáustica, dissecação de cães e gatos  e outras atitudes sutis, como olhar, apenas perceptíveis aos olhos de um bom observador.

Garcia, como dispunha da faculdade de decifrar os homens e tinha amor à análise, sentiu vontade de reencontrar  e ter contato com o estranho homem que um dia encontrara no teatro. Tempos depois, já formado, encontrou Fortunato, que  o convidou a visitá-lo. Já estava casado e Garcia achou sua senhora interessante. Observou seus modos e percebeu que entre eles havia uma incompatibilidade de caracteres. A moça de olhos meigos e submissos, não combinava com o homem de olhos quais chapas de estanho. O narrador expressa que ela parecia estar presa ao marido por medo, aceitando resignada a sua má sorte.

Garcia e Fortunato, mediante proposta do último, resolveram montar uma  casa de saúde. Aberta a casa, Fortunato dedicava-se como administrador e chefe dos enfermeiros e não se recusava a cuidar de nenhuma moléstia, dando preferência aos queimados por soda cáustica, os quais tinham os ferimentos mais profundos e dolorosos. A instalação da casa de saúde perturbava Maria Luisa, mas esta não ousava  indispor-se com a idéia do marido.

Os interesses em comum fizeram estreitar os laços de amizade entre  Garcia e o casal, tornando familiar a convivência entre eles. Garcia jantava nos Fortunato quase todos os dias e ali observava a solidão, a insatisfação e sofreguidão de Maria Luisa. O marido por sua vez,  dedicava-se às experiências com anatomia e fisiologia. Com um laboratório em casa, fazia experiências com animais, utilizando maneiras cruéis,  o que torturava e perturbava profundamente  a esposa. Um dia,  ao chegar ao gabinete, Garcia encontrou Maria Luisa  aflita, avisando-lhe de uma experiência que envolvia um rato. Fortunato cortava as patas do animal. A cada uma que cortava, sucessivamente descia o infeliz a um prato com álcool em chamas. Fazia isso com rapidez, para que o animal não morresse depressa.  O amigo Garcia, que como sempre o observa ficou horrorizado. Viu que Fortunato tinha um sorriso único, reflexo de uma alma satisfeita, vasta de prazer. Após terminar horrível ato, o agressor deu uma desculpa, dizendo que o rato o fizera passar muita raiva por ter destruído um papel importante. Depois, dirigindo-se à mulher e vendo-a aflita,  chamou-a de fracalhona.

A utilização do rato para a tortura, animal que a ciência considera ter a fisiologia mais parecida com a humana; soa como  simbologia profunda da tortura humana. Segundo Zênia Faria citando Antonio Cândido, em artigo da revista Signótica 2: 191-201, jan./dez.1990, o rato  seria o símbolo da atitude de manipulação. Tal manipulação é exercida pelo manipulador de forma misteriosa e aparentemente imperceptível, pois ocorre dissimuladamente e sempre num primeiro momento,  pode ser interpretada como uma atitude  normal. Fortunato, munido com recursos que sua posição social de capitalista lhe possibilita, investe financeiramente para poder usufruir com requinte da dor dos auxiliados. A satisfação de Fortunato ao ver o sofrimento dos feridos, ao dissecar cães e gatos não pode ser provada, mas sim  observada. Dar bengaladas em cães, ainda não é suficiente para considerar o agressor um doente cruel, cuidar de feridos, pode ser socialmente considerado uma atitude benéfica. O momento crucial onde a crueldade é revelada, acontece  quando a personagem tortura o rato, pois não havia como dizer que tal ato pudesse configurar uma experiência científica, ou coisa semelhante. A crueldade é finalmente revelada: Fortunato corta as patas do rato e o baixa nas chamas. O narrador  expõe a cena de maneira que o leitor possa perceber, através do olhar de Garcia,  o prazer que Fortunato sente na dor e no sofrimento do outro.  A crueldade dele pode ser considerada uma patologia, onde um sádico age cruel e antecipadamente como meio de proteção, na possibilidade de vir a sofrer.

Nesse momento, na própria voz de Garcia, o narrador define a personalidade de Fortunato:  “Castiga sem raiva, pensou o médico, pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem” ( Assis, 1998:295).

O comportamento sórdido de Fortunato revela que ele sentia um prazer duplo ao torturar diretamente os animais e ao mesmo tempo, indiretamente a mulher,  fazendo-a sentir-se agonizada diante dos maus tratos realizados nas experiências.

O terceiro momento da narrativa, ocorre justamente quando  o narrador promove a retomada do clímax  inicial. Estão todos na sala, quietos, como descrito no primeiro parágrafo do conto. O leitor, já sabendo de toda a história, espera nesse momento, uma atitude de Garcia, porém isso não acontece.  Maria Luisa com dedos ainda trêmulos  é, a partir de então,  tomada por uma fraqueza que já tinha antecedentes  e adoece. O marido não poupa esforços e enquanto a doença mortal  consome a mulher, dedica-se a velá-la numa espécie de atenção misturada  com egoísmo cheio de sensações. Participa de toda a agonia da esposa, até o momento de sua morte.

Note-se na voz do narrador:

“Não a deixou mais, fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou uma só lágrima, pública íntima”. ( Assis, 1998: 296). 

No desfecho do conto, o  narrador machadiano frustra ainda mais o leitor. Ele muda o foco narrativo. Até então, contava os detalhes pelo olhar de Garcia, no entanto, termina  a narrativa ao lado de Fortunato, que contempla e saboreia o sofrimento do amigo ao beijar o cadáver da mulher já morta.

Vendo a mulher morta, ele descobre o amor de Garcia por ela e, apesar de desconfiar que poderiam ser adúlteros, não sofre.  “Não tinha ciúmes, note-se; a natureza de  maneira  que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento”. (Assis, 1998: 297).  A expressão “note-se”, chama diretamente a atenção do leitor para  não ser comum ou normal o fato, de ter  tido uma atitude fria  e tranqüila  diante da descoberta da possível traição.

Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pode mais. O beijo rebentou em soluços. E os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbolhões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa. (Assis, 1998: 297).

O próprio narrador machadiano é cruel, quando constrói um discurso, deixando claro que conhece toda a história, mas faz questão de imprimir o suspense, fazendo o leitor agonizar-se junto  com Garcia na busca da causa secreta.

Também é descarado e comparsa do capitalista Fortunato.  Com um toque discreto de crueldade, ele admite ser amor, o sentimento de Fortunato por Maria Luisa, expondo a crueldade e as atitudes de manipulação do marido, apenas como um modo diferente de amar em relação aos conceitos sociais estabelecidos para amor. Note-se na citação: “Fortunato  recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la”. ( Assis, 1998: 296).

A causa secreta é a crueldade, que mesmo revelada não deixa de ser secreta, pois ela é chocante, inexplicável e misteriosa aos olhos de quem não a possui.

A maneira astuta que o narrador utiliza para mudar o foco narrativo o faz parecer cruel. Garcia e Maria Luisa são vítimas da crueldade. Eles guardam o segredo do amor mútuo. Garcia, no entanto, participa da história como observador. Apenas uma vez ela age convencendo Fortunato a parar de dissecar animais.

Ao tornar-se um analista obsessivo, Garcia  desvenda o enigma de Fortunato e satisfaz seu desejo quase doentio de observar o outro sem fazer  interferências. É evidente a importância do sentido da visão na narrativa, que insistentemente é remetida no texto por meio de diferentes verbos: examinar, mirar observar, desvendar, espiar, velar, olhar, fitar, assistir, entre outros.Garcia também tem seu lado sádico

O narrador enxerga tudo e imprime ao texto uma reflexão sobre o “ver além das aparências”, demonstrando conhecer a contento o espírito humano, podendo assim, analisar a alma das pessoas. Garcia não agiu, mas se o tivesse feito, a história seria outra, tanto para ele, quanto para Maria Luisa, quanto para o próprio Fortunato. Com a morte de Maria Luisa, Garcia chora revelando a dor e o arrependimento de quem poderia ter agido e não o fez.

Fica assim implícito no conto, que a própria realidade é cruel. Garcia parece querer ter certeza quanto à verdade sobre o amigo para poder agir, mas quando  tem não o faz. O querer ter certeza esbarrou na fragilidade da vida, onde a único fato certo, inevitável e imutável é a própria morte. A mesma fragilidade, própria do espírito humano o impediu de agir.  Esta foi  realidade cruel que enfrentou Garcia, porque buscou uma verdade e simplesmente ficou estagnado diante dela. Irrita o leitor, a passividade de Garcia. O fato é que da mesma forma que Fortunato era movido pela crueldade, Garcia era movido pelo desejo de observação. A crueldade implica ação  e manipulação, enquanto que a observação não.

O fato mais cruel é que entre Garcia e Maria Luisa,  duas pessoas aparentemente boas,  havia uma outra cruel: Fortunato. Eles deixavam-se manipular por ele, como um rato sem defesa. Não eram ratos, mas comportavam-se como se fossem. Principalmente Garcia, sempre observando, como os ratos fazem na busca do alimento. Espreitando e alimentando-se do que via para digerir as conclusões que obtinha. Os ratos estão resignados a manipulação, assim como os homens em muitas situações, estão resignados a situações que fazem a realidade ser cruel. 

Ao praticar atos de tortura, sentir prazer com a morte da esposa e o sofrimento do amigo, o capitalista Fortunato, deixa claro que para ele não  importa  o objeto da tortura, mas sim, o prazer ela  lhe proporciona. Ele age com ar de superioridade, como se nada pudesse tocá-lo, atingi-lo. Como detentor do poder, era o manipulador da situação. Seu nome Fortunato origina-se do latim Fortunatus, que significa consagrado à Fortuna, deusa romana da boa sorte e destino.  Nada estava acima do cumprimento de seus desejos, nem a vida, dos outros,  é claro.




RESUMO: Este ensaio é uma análise de “A Causa  Secreta”, de  Machado  de  Assis, que enfoca os aspectos da crueldade e manipulação que recorrentemente envolvem as personagens Fortunato,o capitalista sádico, sua frágil esposa Maria Luisa e Garcia,um observador contumaz.

 

PALAVRAS-CHAVE: crueldade; suspense; manipulação; causa secreta; sadismo.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS




ASSIS, Joaquim Maria Machado de. “A Causa Secreta”. Contos/ uma antologia.  São

     Paulo: Companhia das Letras, 1998.

CEZAR, Adelaide Caramuru. “O trágico enquanto marca do texto literário”. Signum,

     Estudos Literários, Londrina, v.2,  p. 139-153, 1999.

CURVELLO, Mario. “Polcas para um Fausto suburbano”. In: BOSI, Alfredo. Et al.

     Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1982.

ROSSET, Clement. O princípio da crueldade. Trad. José Thomaz Brum. Rio de

     Janeiro: Rocco, 1989.




















     

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