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A avenca

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Ao lado da cabeceira, as folhinhas encrespadas.

Faz dias que não recebe uma gota d’água.

Esquecemos de molhar.

A família reunida, filhos, noras, genros, netos, bisnetos, sobrinhos.

Alguém lembra de aguar a avenca.

Minha tia-avó  abre os olhos.

Mirradinha na cama grande.

Vira a cabeça devagar, olha a avenca, fecha os olhos.

Que sede… Faz tempo que vocês não vêm me visitar…  Que tal o casamento da Amelinha? E a torta de morango, estava boa?

Conversa normalmente, a minha tia-avó.

Dormiu durante quatro meses seguidos, dia e noite, sem acordar.

O cabelo ralo, esbranquiçado na raiz, as longas unhas esmaltadas de vermelho. Ao redor dos olhos inchados, a pele encrespada, vincos profundos juntos aos lábios, que se franzem a cada palavra.

A voz, ah, a voz, sedutora, acariciante.

Olha para mim como se eu fosse muito especial; sempre teve esse dom: cada um sente-se único, escolhido, filhos, amigos, amantes, o marido.

A todos dava um pedacinho de si, de todos sugava tudo.

Uma vez por semana, religiosamente,  nos reunimos na casa dela para almoçarmos, quer esteja acordada ou dormindo.

A avenca, recém regada, abriu algumas folhinhas, mas muitas continuam franzidas. Fraquinha, será que ainda vai conseguir cumprir sua missão? Espantar mau olhado, absorver as energias negativas, acusar se tiver alguém invejoso por perto – as folhinhas murcham no ato.

Outrora linda, verde, exuberante.

Mirradinha no vaso grande, trêmula, desvanece pouco a pouco.

Não posso esquecer de regar antes da próxima visita.

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