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Quando a desconfiança vira obsessão

Sylvia Responde| Views: 53

Em uma conversa informal com um grupo de mulheres a respeito de relacionamento amoroso, o tema foi a vigilância que elas exercem em relação a seus companheiros.

Uma das participantes permitiu que a conversa que tivemos fosse compartilhada. Seu nome é fictício.




Sylvia Loeb: gostaria que falasse um pouco a respeito do relacionamento com seu marido. Há quanto tempo estão casados?

Marisa: vivemos juntos há oito anos e sete meses. Não somos casado de fato, mas digo que Mauro é meu marido, apresento ele desta maneira; pra mim, somos casados.

SL: e ele?

M: não liga, dá risada, diz que sou boba, mas se eu quero dizer pra todo o mundo que é meu marido, então tá bom.

SL: o que mais?

M: ele diz que me ama, que encontrou a mulher da vida dele.

SL: então você se sente feliz?

M: sim, muito.

(Sacode negativamente a cabeça, começa a chorar)

 SL: por que está chorando?

M: é muito difícil falar disso. Sinto vergonha, mas é um impulso que não posso controlar. Vivo infeliz, aflita, imagino que estou sendo traída, que ele vai me deixar por outra, um inferno.

(Continua a chorar; depois de um tempo, olha para mim de frente, parece que está reunindo coragem para falar. Enxuga as lágrimas)

M: espiono tudo, fuço em tudo. Entro no celular dele quando está no banheiro. Ele não tem a mínima ideia de que sou assim, disfarço muito bem. Descobri a senha, entro no watts, nas mensagens, nos e-mails. Nos bolsos das calças, nas cuecas, até nas meias. Pareço um cachorro perdigueiro.

SL: descobriu alguma coisa?

M: um fio de cabelo negro, meio longo, mas não muito.

SL: igual ao seu?

( para de chorar, mas continua como se não tivesse ouvido a observação que fiz)

M: tenho certeza de que ele me trai, mas é muito esperto. Apaga as mensagens antes de vir para casa, apaga todos os rastros.

SL: por que pensa isso?

M: é um homem bonito, atraente, tenho certeza de que tem muita mulher atrás ele. Você acha que ele ia resistir?

SL: não sei. Mas se ele diz que te ama, que você é a mulher da vida dele, se vocês têm um bom relacionamento...

M: diz isso pra me acalmar, porque sabe que sou ciumenta, só não sabe o grau. Cheiro ele inteirinho quando chega em casa, ele ri e diz “tá me farejando de novo.”

SL: ele brinca com suas desconfianças...

M: pois é, ele brinca, não me leva a sério quando entro nessas.

SL: é para levar?

(Ela olha para mim com cara de espanto, parece que nunca pensou nisso)

M: você acha que eu não devo fazer isso?

SL: o que você acha, Marisa?

(Não responde, faz um longo silêncio)

M: nunca ninguém me levou a sério, sempre riram da minha cara, sempre diziam que eu era boba, que era fácil me enganar. Jurei pra mim que ninguém iria me enganar na vida.

SL: você se sente uma boba dentro do seu relacionamento, sendo enganada pelo seu marido?

(Chora novamente, põe a mão na garganta)

M: tem uma garra me apertando aqui.

SL: você se sente uma boba dentro do seu relacionamento, sendo enganada pelo seu marido?

M: eu amo meu marido, sei que ele me ama, acho que não me trai, que não vai me abandonar, mas tenho medo, tenho medo.

(Chora muito)

SL: querida Marisa, todos nós temos medo de perder quando amamos alguém. O amor vem junto com o medo. Queremos aquele amor para nós, não queremos que ele vá embora, que alguém o leve, mas parece que o seu medo deixa você em tal grau de angústia que estraga a sua vida, estraga seu casamento. Será que podemos pensar que esse terror de ser feita de boba não tem nada a ver com seu marido e sim com o que sempre diziam para você?

M: como assim?

SL: seria bom que você pudesse investigar com mais cuidado a autoimagem que construiu para si em função de sua história de vida, pois as marcas da infância incidem fortemente em nossa vida adulta. E tendem a persistir, numa repetição sem fim. Têm efeitos duradouros e às vezes, catastróficos.




Depois que ela se acalmou, mostrei-lhe essa entrevista e perguntei se podia publicá-la. Ela me disse: “mostra sim, pra verem o quanto essa loucura maltrata a gente, estraga a nossa vida.”

Como disse no início, o relato reproduz uma entrevista. Não tem a menor pretensão de preencher o lugar de uma sessão de terapia, embora o diálogo, por si só, tenha se mostrado terapêutico, em algum grau.

Marisa teria necessidade de investigar com mais cuidado a autoimagem que construiu para si em função de sua história de vida, pois as marcas da infância incidem fortemente em nossa vida adulta. E tendem a persistir, numa repetição sem fim. Têm efeitos duradouros e às vezes, catastróficos.

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