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O Diario da Esperança: vítimas ou delinquentes?

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Le Grand Cahier, de Ágota Kristóf (1935 / 2011), é o livro sobre o qual se baseia o filme O Diário da Esperança. A autora, nascida na Hungria, deixou a terra natal aos 21 anos juntamente com o marido e a filha de 4 meses por causa da repressão soviética que se seguiu à Revolução Húngara de 1956. Instalou-se em Neuchâtel na Suíça onde trabalhou durante cinco anos em uma fábrica da indústria de relojoaria quando aprendeu francês, língua em que iria desenvolver sua carreira literária.

Le Grand Cahier, título da obra em francês, dirigido pelo também húngaro János Szász (de Woyzeck) trata, de forma asfixiante,  os acontecimentos em uma pequena aldeia do interior da Hungria.

A partir de 1941, as forças húngaras lutaram ombro a ombro com a Alemanha nazista, quando avançaram através da Ucrânia Soviética, depois para a Rússia, abrindo caminho até Stalingrado. Entre 1942 e 1943, a maré da guerra virou, e o Exército Vermelho libertou o território soviético, avançando para o oeste de suas fronteiras para derrotar a Alemanha e seus aliados.

Quase no final da guerra, em 1944, a Alemanha invadiu a Hungria, período em que os nazistas já executavam “A Solução Final para a Questão Judaica”. Em fevereiro de 1945 as tropas russas ocuparam a capital, Budapeste. As operações continuaram até abril de 1945 quando as últimas forças nazistas e o restante das tropas húngaras aliadas ao regime nazista foram derrotadas.

Esse período de tempo é o cerne de O Diário da Esperança, da invasão nazista à ocupação russa, último ano da guerra, em 1945.

O filme conta a história de dois irmãos gêmeos que, devido a guerra, têm de se separar de seus pais.

Cena 1: O casal e os filhos em casa, os meninos abraçados aos pais. O pai, convocado para a guerra, decide que eles não devem ficar na cidade, correriam perigo de vida. Ao se despedir, entrega aos meninos um grande caderno ( daí o nome do livro, Le Grande Cahier), onde deverão escrever tudo o que se passar com eles durante o tempo de separação, um diário. É a forma de garantir que não ficará longe da vida dos filhos. Insiste também em que não parem de estudar.

Cena 2: Os meninos são levados para a fazenda da avó materna, uma camponesa rude, que detesta a filha, a quem não vê há mais de vinte anos. A figura da velha, grotesca, disforme, mau humorada. Os vizinhos a chamam de Bruxa. - São teus netos, diz a mãe. – Meus netos?! Não os conheço, quantos são? – Dois. Dois meninos. Gêmeos. - O que fez com os outros? - Que outros? - As cadelas têm quatro ou cinco crias de cada vez. Guardam um ou dois, os outros são afogados, diz a avó.
O contraste com a cena inicial não poderia ser mais chocante. Os garotos são retirados de um ambiente amoroso e jogados em um lugar inóspito, feio, mal cuidado, marcado pela guerra e pelo ódio, onde não são bem vindos.

Cena 3: A despedida da mãe e dos meninos: aos prantos ela foge deixando os filhos que tentam se agarrar a ela.

Cena 4: Na primeira noite a velha obriga os garotos a dormirem fora da casa. No dia seguinte lhes diz que só comerão se trabalharem. A porta fechada e aberta com estrondo, sublinha a brutalidade da avó.

A casa sórdida, descuidada, suja, a fazenda mal tratada, ilustram o mundo interno da velha, a desolação da guerra.

Cena 5: Refeições permeadas por gritos, tapas brutais na cabeça dos meninos, sempre chamados de bastardos. A cara da avó bruxa capturada em close assusta os gêmeos, assusta o espectador, já definitivamente identificado com os garotos. A rotina: tapas, gritos, xingamentos, uma sopa rala, a refeição. Quando eles se recusam a tomá-la, mais tapas brutais na cabeça, mais gritos de bastardos.

Cena 6: Os gêmeos acompanham a velha à feira onde ela vende produtos da fazenda. Uma garota passa pela barraca, rouba uma maçã e sai desabalada. Os meninos atrás para pegar a ladra, que entra em um botequim enfumaçado, cheio de velhos andrajosos. Silêncio total, luz filtrada pela fumaça de cigarro; quando chegam perto da ladra, ela se vira devagar, a câmera se aproxima do rosto dela, close em sua face cortada pelo lábio leporino; aos gritos chama-os de ladrões. Eles tentam correr, são agarrados pelo proprietário que os arrasta para uma sala ao lado, onde são surrados impiedosamente. Boquinha é seu nome, mais uma menina brutalizada que se torna amiga deles, mais uma criança mal tratada nesse mundo que se apresenta ao espectador. Toma conta da mãe surda.

Cenas que se repetem: Os meninos escrevem no diário, os meninos estudam em uma Bíblia que encontram na casa da avó. Os meninos resolvem se fortalecer para enfrentar a nova realidade. Espancam um ao outro para aprenderem a suportar dor, jejuam para enfrentar a fome, xingam-se de bastardos, malditos, porcos, treinam o corpo e o espírito para dar conta da situação. Aprendem a roubar com a nova amiga, jogados em um mundo do salve-se quem puder. Sujos, com piolhos, maltrapilhos, sapatos rotos, tão diferente das crianças bem cuidadas das primeiras cenas.

Cena 7: Precisam de dinheiro para comprar botas para o inverno. Boquinha lhes diz onde arrumar: pedir ao cônego, para quem “abriu as pernas”. Os gêmeos vão chantagear o padre, que lhes pergunta se sabem o que estão fazendo. – Chantagem, diz um dos gêmeos. -Vocês conhecem os dez mandamentos? -Sim. – E não os seguem? – Ninguém os segue. O padre lhes dá dinheiro, não sem antes mentir: - Dou-lhes esse dinheiro porque precisam, não porque estão me chantageando.

Continuemos: os meninos vão comprar botas com o dinheiro extorquido, já é inverno. Entram na casa do sapateiro, um judeu; eles têm dinheiro para apenas um par de botas. O judeu lhes diz, - Comprem apenas um par, vocês revezam no uso. – Somos gêmeos, nunca nos separamos. O judeu chega perto deles, coloca a mão em suas cabeças, o primeiro gesto de carinho. - Levem dois pares, usem o dinheiro para comprar meias.

Cena 8: os gêmeos encontram um soldado desertor no meio da floresta. Quase congelado, morrendo de fome, não pode se mexer. Os garotos vão buscar alimento, mas voltam apenas no dia seguinte: o soldado morto, sentado em cima de uma caixa, onde estão guardadas granadas e uma carabina, que enterram junto à casa da avó.

Cena 9: uma jovem mulher vem comprar batatas na fazenda da avó e encontra os meninos, que levam as compras para a casa dela. Enlouquecida pela solidão, pela miséria, pelo desejo sexual insatisfeito, tira a roupa e atrai os moleques para um banho. Uma cena de masturbação, uma cena de perturbação.

Cena 10: Judeus em fila, conduzidos por guardas, caminham para um lugar sem volta. A jovem da cena anterior, na janela, grita para os soldados - Peguem o judeu sapateiro, o judeu sapateiro!

Cena 11: Os gêmeos correm para lá e encontram o sapateiro assassinado em uma poça de sangue. O instrumento usado para o assassinato, o martelo , sua ferramenta de trabalho.

Cena 12: Os meninos desenterram as granadas e as colocam no fogareiro da jovem, que explode quando ela vai acendê-lo.

Cena 13: Os garotos são descobertos, presos e barbaramente surrados. A tortura maior não é a brutalidade do castigo, mas o fato de serem separados.

Cena 14: O carteiro chega com uma grande encomenda, a avó a carrega para dentro da casa. Os meninos invadem a sala e descobrem que é uma caixa enviada pela mãe, cheia de roupas quentes, uma carta dizendo da saudades que sente deles. Mais uma de várias que a avó escondeu? Os meninos queimam a carta. - “Temos que esquecer as palavras carinhosas de mamãe porque lembrar delas nos faz sofrer”.

Cena 15: A avó tem um derrame, está fora da casa, os gêmeos a arrastam, é muito pesada para ser carregada.

Cenas que se repetem: os meninos espionam a avó que durante a noite se embebeda, xinga o marido já morto, tira de um esconderijo uma caixa de joias.

Cenas que se repetem: a história é ilustrada pelo diário dos garotos, que além de escreverem, desenham, fazem colagens: centenas de besouros espetados, sapos eviscerados, gotas de sangue que escorrem pelo papel, pequenos desenhos negros de soldados armados. Uma voz em off faz a narração do filme. Dois corpos, uma voz, os gêmeos não se diferenciam, são um, apenas um. O tratamento em terceira pessoa, nós em lugar do eu e você. – “Não deixaremos que nos separem”.

Cena 16: A mãe volta, já ao final da guerra, para buscar os filhos. Um bebê nos braços, um oficial alemão no carro, os meninos perguntam quem é aquela criança: - Sua irmãzinha. Eles não desejam ir com a mãe, a avó surge por trás e coloca a mão em seus ombros. Um gesto de proteção? Ou um ataque à filha?

Cena 17: A mãe quer os filhos, o oficial alemão agride os meninos, empurrando-os para dentro do carro, os garotos se defendem, se atiram contra o oficial que cai e vai embora, deixando para trás a mãe e a criança.

Cena 18: Uma bomba explode, matando as duas.

Cena 19: A avó enterrando a filha e o bebê: chora e reza pedindo salvação para as que morreram. A Bruxa se humanizando?

Cena 20: A avó pede aos meninos que lhe deem um remédio para abreviar a vida se tiver um segundo derrame. Estende a eles um vidro.

Cena 21: Os russos entram no vilarejo, expulsando os alemães. Boquinha os recebe como libertadores.

Cena 22: Os garotos entram na casa de Boquinha, estuprada e assassinada pelos russos. A mãe, órfã da filha, o que lhe resta?

Cena 23: A casa de Boquinha em fogo, os meninos correm de lá.

Cena 24: O pai volta. Magro, olhar desvairado. – Onde você esteve? – Preso. Ao saber que a esposa está enterrada ali mesmo, cava com as próprias mãos o túmulo; descobre que tem mais alguém enterrado lá: o bebê.

Cena 25: A avó tem um outro derrame. Os gêmeos atendem ao pedido da velha.

Cena 26: O pai esfaimado tomando a sopa rala, os meninos o encaram. – Mostre! Tentam agarrar a mão do pai. – O que aconteceu? – Fui torturado, arrancaram minhas unhas.

Deixo o final do filme para o espectador que tiver coragem de testemunhar o processo de transformação de crianças saudáveis e amorosas em pequenos monstros.

Figuras fundamentais que deveriam servir de modelo para humanos em crescimento inexistem: o pai convocado, a mãe ausente, uma avó que os odeia, um padre abusador. O núcleo familiar destruído, sem ninguém para suprir tal carência, ninguém para substituir falta tão devastadora.

Aqui e ali, sinais de humanidade remanescente dos primeiros tempos de criação. A tentativa de ajudar o soldado que acaba morrendo congelado, a amizade com Boquinha, outra pequena delinquente, forjada como eles na miséria da guerra e na maldade dos adultos. O atendimento ao pedido da avó - que abreviassem seu sofrimento. O incendiar a casa de Boquinha depois que é estuprada deixando a mãe completamente à mercê da violência.

Parece-me que a grande quebra, o caminho talvez sem retorno, deu-se com o assassinato do sapateiro judeu, o único que teve um gesto solidário, humanizador para com os garotos. Pois o processo de se construir pessoas é pontuado por pequenos e fundamentais sinais de carinho, cuidado, capacidade de se colocar no lugar do semelhante, aceitação, tolerância.

A cria humana é absolutamente dependente dos cuidados de outros. Tanto as virtudes quanto a maldade, em boa medida, são constituídas na relação com as figuras parentais ou substitutivas. Em outras palavras, tornar-se humano requer agentes humanizadores.

Alguns relatos descrevem crianças criadas por animais desde os primeiros anos de vida sem contato com humanos, as chamadas crianças selvagens. Por algum motivo perderam o contato com humanos, mas conseguiram sobreviver: não falam, não se locomovem como humanos, não se alimentam como humanos.

No filme, a violência a que os meninos são submetidos os faz submergir em um processo de dessubjetivação como a única forma de sobrevivência. A brutalidade os anestesia, a infância deixa de ser uma passagem abrigada, os garotos são jogados em um mundo adulto e desiludido.

Aharon Appelfeld, importante escritor judeu, preso em um campo de concentração aos nove anos de idade, relata em uma entrevista, que sofreu “uma espécie de transformação: tornei-me um pequeno animal. Era o desejo de viver, o desejo de sobreviver”. Primo Levi escreveu que no campo todos eram ladrões, porque a única coisa que importava era sobreviver.

A fotografia de Christian Berger, já conhecido entre nós pelo trabalho de imagem em A Fita Branca de Michael Haneke, nos revela belíssimas paisagens em contraste com a feição carregada dos atores. A beleza e o horror concomitantes, Beethoven e sua Sétima Sinfonia, ultrapassam o espectador, que não desgruda os olhos da tela.

Aos garotos, amadurecidos à força de violência, resta ainda um último ato: separar-se. Os gêmeos não tinham identidade própria, um a sombra do outro.

Ao espectador  o final do filme. Apenas observo que o diário é preservado, sinal inequívoco da presença do pai.

Ágota Kristoff, em uma entrevista, relata que ao terminar Le Grand Cahier, não pôde deixar de dar continuidade à história. Os gêmeos a perseguiam, ainda tinham contas a acertar com a autora. “Durante muito tempo não podia pensar em outra coisa, tinha que continuar”. Seguiram-se duas publicações, A Prova e a Terceira Mentira que formam uma trilogia em que cada título é uma retomada dos anteriores, com versões diferentes dos mesmos fatos.

Sua literatura mostra algo de profundamente doloroso, sem consolo, desamparo radicalmente humano e profundamente triste, cada página revela o horror, a monstruosidade, a desesperança.

E nem por isso Ágota Kristof deixa de escrever, nem de ler. Seria a literatura uma possibilidade de construir um lugar de abrigo e de equilíbrio?

Saímos do filme arrasados, mas como toda obra de arte, produtora de sentidos, desassossegados com o destino dos pequenos gêmeos.

E espantados com o que sentimos, completamente identificados com os pequenos assassinos. Mais um susto!

Será que descobrimos em nós, confrontados com situações limite, as imensas possibilidades do mal?

Inevitável pensar que esse cenário de destruição não se restringe à guerra. Inevitável pensar que esse cenário de destruição é um pano de fundo entre nós, no cotidiano de nossas vidas, em cada esquina, a cada a cada vez que abrimos os jornais, jovens sendo decepados pela violência, infância roubada.

Os personagens sem nome, no filme e na realidade, transformados em “ninguém”, atestam que a guerra não acabou.

A tradução do título, Le Grand Cahier para Diário da Esperança, é um absurdo de contrassenso.

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