Written by

Notícia de jornal

Contos| Views: 30

Lemos que Aranha, goleiro do Santos, sofre xingamentos e ouve sons de macaco em um jogo da Copa do Brasil. Vemos a foto dele, imensa, na primeira página do caderno de esporte. A imagem nos mostra um homem alto, vigoroso, testa franzida, expressão de surpresa, descrença, indignação diante do que ouve. Na mesma página, vemos fotos de torcedores negros; a legenda do jornal diz que estão imitando macacos. Na mesma reportagem ainda, a foto de uma torcedora do Grêmio, com a mão ao lado da boca, como fazemos quando gritamos e queremos ser ouvidos, berrando a palavra macaco. O fotógrafo foi sagaz, tirou a foto em três tempos, destacando as três sílabas da palavra.

O pecado de Aranha? Ter defendido o Santos dos ataques do Grêmio, que perdeu o jogo por 2X0.

A surpresa que vamos na expressão de Aranha talvez seja uma projeção da nossa. Macaco?! Torcedores negros xingando um outro negro?! E o maior herói do futebol brasileiro, um dos maiores do mundo, Pelé?!

A descrença que vemos na expressão de Aranha talvez seja, mais uma vez, projeção nossa. Contra todas as evidências em contrário, não queremos acreditar que o Brasil seja um país preconceituoso, onde negros são assassinados e seus corpos desaparecidos, onde a polícia prende e mata mais negros do que qualquer outra raça.

A indignação no rosto de Aranha, é a nossa diante do preconceito, que funciona na base do ódio ao outro, não reconhecido como semelhante. Qualquer outro, arbitrariamente escolhido, serve para a projeção maciça do que não suportamos em nós: homossexuais, negros, mulheres, índios, judeus, velhos, pobres, aleijados, estrangeiros, a lista é imensa.

Lemos ainda no jornal, que a torcedora foi identificada e dispensada do emprego. A reportagem nos diz que ela não foi mais vista em sua casa, que permanece fechada. Que deve estar abrigada na casa de parentes.

Lemos no jornal de hoje que sua casa foi apedrejada. Os justiceiros seriam a parte ofendida pelos xingamentos a Aranha? A justiça está feita? Dente por dente, olho por olho?

Ressuscitamos a Lei de Talião?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *