Written by

Renata e o luto

Ensaios| Views: 34

O avião se espatifou e transformou em cacos o sonho de Eduardo Campos, a aspiração de mudar o Brasil. Juntamente com ele, nessa última viagem, sua equipe de profissionais jovens e entusiastas, unidos pela energia do homem louro de olhos verdes, sorriso branco e fala fluente.

Depois dos primeiros momentos de incredulidade, o choque violento: a vida não pede licença, o destino bate à nossa porta quando menos se espera. Renata, a companheira de 33 anos de vida em comum, nos conta, "a morte bateu na porta errada", “isso não estava no script”.

Renata Campos, economista, auditora do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, filiada há anos ao PSB, sempre acompanhou o marido em sua vida política, de quem era conselheira.

Renata Campos, mãe zelosa de cinco filhos, enquanto o marido governou Pernambuco, ficou afastada do TCE e atuou como coordenadora do conselho consultivo do programa Mãe Coruja.

Renata Campos, pouco afeita à mídia, a roupas de grife, ostenta galhardamente cabelos grisalhos, pouca maquiagem.

Renata Campos, depois do enterro do marido, convoca uma reunião com as lideranças e militância de todos os partidos da Frente Popular de Pernambuco, numa demonstração clara de que assume a responsabilidade em dar continuidade ao projeto político do então candidato.

Renata Campos, figura desconhecida até a tragédia, torna-se o centro de atenção da mídia, tudo o que não desejava.

E o que vemos é uma mulher sofrida, digna em seu novo papel, o de viúva.
Em seguida à morte do companheiro, passa a noite inteira acordada, ela e os filhos, numa maratona de emoção. Consola os que chegam para consolá-la, amamenta o filho Miguel de sete meses, abre as portas de sua casa para todos que desejarem demonstrar os sentimentos nessa hora tão sofrida.

“Ela está completamente serena. Você vai consolar e é ela quem te consola. É impressionante”.

“Quem olhar para Renata verá Eduardo comandando a campanha”.

“ Fica tranquilo Dudu, teremos a sua coragem para mudar o Brasil. Não desistiremos do Brasil. É aqui que cuidaremos de nossos filhos”.

"Como participei a vida toda [da política], não terá diferença dessa vez. Tenho a sensação que tenho de participar por dois. Contem com a gente."

“Depois de todos esses anos sabendo que muitas coisas precisam ser feitas ainda, precisamos garantir essa vitória para esse sonho ir adiante".

“Os olhos verdes dele serão o farol que iluminará o Brasil”.

Imagens e falas de Renata Campos, tão tocantes quanto perturbadoras.

Quando Renata poderá se recolher em luto pela perda do marido tão amado? Quando poderá chorar, abraçada aos filhos, longe dos holofotes? Quando poderá se mostrar desesperada, quando poderá gritar contra a injustiça do destino, arrancar os cabelos, jogar cinzas na cabeça, perguntar, aos brados, por que eu?, por que nós?

O quarto filho fica rodando por entre as pessoas que visitam a casa dos pais, vai para o colo da mãe, esconde a cabeça nos pescoço dela, diz alguma coisa em seu ouvido, sai do colo da mãe, não chora, fica zanzando por lá.

As imagens mostram uma família linda, unida em torno do nome e do ideal do pai, desejando transformar o legado simbólico em realidade.

Para isso, é necessário tempo, tempo de luto.

Freud introduz a noção de trabalho de luto, desencadeado quando a realidade mostra que o objeto amado não existe mais, com a consequente exigência de se retirar desse objeto todo o afeto até então investido. Um longo trabalho, que requer tempo, energia e causa muita dor pela despedida e pelo afastamento do ser amado. Ao final desse processo, abre-se a possibilidade de amar novamente, de olhar o mundo com interesse renovado, tão apagado nos tempos do luto.

É o nosso desejo que Renata e os filhos consigam entrar em contato com a dor da perda do marido querido, do pai amado. Que consigam se recolher para um lugar de silêncio, onde a memória poderá surgir com menos estardalhaço. Que, ao sepultar o marido e o pai, o companheiro e o amigo, possam fazer a despedida dolorosa, longa e necessária, a que chamamos luto, para que finalmente, ao final do processo, tenham êxito em cumprir a promessa de realizar o sonho de Eduardo Campos.

One Response to " Renata e o luto "

  1. marciaarantes disse:

    Lindo texto. Acrescentaria uma frase ao final: Ou não.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *