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Dentro da Casa

Filmes| Views: 48

Filme de François Ozon (2012)

Sinopse

Um pouco cansado da rotina de professor, Germain (Fabrice Luchini) reclama da falta de talento de seus alunos para sua esposa (Kristin Scott Thomas). Um dia, descobre na redação de um deles um estilo diferente de escrever, o que dá início a um jogo interessante entre pupilo e mestre que acaba por envolver a própria esposa do professor e a família de um colega de classe.

Gemain, morto de tédio dá aulas de escrita a um bando de adolescentes absolutamente desinteressados do assunto.O professor  divide com a mulher, Jeanne, a mediocridade da produção dos garotos. Lê em voz alta para ela o que seria uma redação de final de semana: “No sábado fiquei vendo TV, no domingo, dormi o dia inteiro”. Várias redações do tipo acima, até que aparece uma narrativa bastante diferente, onde o narrador coloca-se dentro da casa de um colega, com o pretexto de dar aulas de matemática, mas o que o move é o desejo de saber como vive uma “família normal”. Sua descrição é objetiva e crítica, e mais que tudo, ousada, pois se coloca como um voyeur sem que a família desconfie.

O professor fica fascinado com a audácia do jovem e se interessa especialmente em lhe dar aulas, pois vê no menino um talento em potencial, além de se alimentar, de alguma forma daquilo que o olhar do aluno  lhe permite ver pelo “buraco da fechadura”.

Temos então dois voyeurs. O professor, escritor fracassado (o que vamos descobrir no decorrer do filme) e o garoto, escritor em potencial.

As aulas que Germain ministra são excelentes, pois contemplam todos os aspectos que um autor deve atentar para  escrever bem. Temos diante de nós, espectadores, verdadeiras aulas de escrita criativa, com todos os detalhes necessários a uma boa produção.

Vez ou outra o professor faz alguma confusão entre  autor e narrador, mas esse detalhe não chega a comprometer as aulas, dadas com vivacidade, paixão e talento.

A partir daí começa um jogo entre realidade e ficção curiosíssimo, bem engendrado, exatamente o que um bom escritor faria, deixando o leitor/espectador desamparado no ponto certo. A trama narrativa vai se desenvolvendo e o espectador é capturado, como em um romance de suspense. O autor mete-se nos aposentos mais íntimos da casa, ouve conversas que não deveria ouvir e acaba apaixonando-se pela mãe do colega a quem dá aulas de matemática.

Novamente o jogo entre realidade e ficção captura o espectador.

Há, no entanto, uma outra história subjacente à primeira: além da narrativa do garoto e do professor, corre a do adolescente que procura um lar. O dele foi destruído pela mãe que abandonou o pai, um looser.

Como já dito, o garoto quer saber como é “uma família normal”.

Nesta dimensão o filme enfraquece um tanto, principalmente porque além deste tema ser clichê, o diretor, François Ozon, nos promete um garoto perverso, que manipula a família e faz uso dela, mas ao final não se trata disso, é apenas um garoto problemático que não sabe se situar diante de sua família “anormal”.

Em algum aspecto, Dentro da Casa faz lembrar Teorema (1968), de Pasolini, onde um estranho subverte de modo catastrófico toda a ordem da família burguesa: tanto a mãe quanto o pai são destituídos de seus lugares tradicionais, dando lugar a uma irrupção de acontecimentos que não podem mais ser contidos.

Mas as questões de Pasolini eram outras, e outros eram os  tempos...

Ainda dentro da chave de referências, lembramos também de Morte em Veneza (1971), filme extraordinário de Visconti, onde Gustave von Aschenback, um velho compositor, em um período de estresse artístico e pessoal, apaixona-se por Tadzio, um jovem que evoca a juventude perdida, com seus arroubos de coragem e audácia.

No filme de Ozon, tudo entra nos eixos, nesses tempos politicamente corretos. Mesmo ele, um diretor explicitamente homossexual, que usa sua condição como bandeira libertária, opta por um happy end, onde tudo volta a ser o que era.

Mas Ozon quer mais e neste ponto parece esquecer-se de um ponto sagrado na literatura, assim como no cinema: mostrar a cena e não falar sobre. É quando Jeanne, a mulher do professor, pergunta ao marido se ele está apaixonado pelo aluno dado que o casal não tem mais relações sexuais. Ao optar pelo  caminho mais fácil, Ozon consegue um resultado frouxo ao final do filme: o professor deprimido internado numa clínica não soa verdadeiro.

O espectador pensa: ora, não é para tanto!

Em Morte em Veneza Visconti nos mostra Von Aschenback destruído pela desilusão, numa cena inesquecível e dolorosa, o velho chorando despudoramente lágrimas manchadas de rímel.

Ozon opta por um final açucarado, sugerindo  um reencontro feliz, numa relação pai/filho. No entanto, apesar da banalidade da solução não podemos deixar de notar a relação sutil que se estabelece entre Claude e Germain.

O garoto deseja escrever para o professor, ele precisa do professor para estimular, dirigir, provocar. A relação deles são as que temos com nossos interlocutores, para quem escrevemos. Constitui-se uma relação transferencial forte e importante, além de extremamente delicada.

Novamente a psicanálise: seja na relação transferencial professor-aluno, seja na relação analista- paciente, ou na relação pai-filho, onde finalmente o filme desemboca, delineia-se, mais uma vez e sempre, a procura de reconhecimento, um reflexo no olhar do Outro.

O final do filme chega exatamente neste ponto, não sem antes sem fazer uma bela e discreta homenagem a Hitchcock, em Janela Indiscreta.

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