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O lenço de seda

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Estava passeando no mercado de Tel Aviv no sábado pela manhã. Centenas de pessoas, gritos, risadas, idiomas de todo o planeta, uma babel de cores, sons, sabores, aromas.

Vendem de tudo lá: chapéus, pulseiras, anéis, sandálias, xales, doces, frutas, verduras, romãs, tâmaras, temperos e especiarias, amarelos, vermelhos, verdes, secos e frescos.

Cada compra é um martírio, há que negociar cada shekel, cada tostão, assim é que se faz, assim que se mostra interesse pela mercadoria apresentada. O apreço, porém, tem que ser contido na medida certa, num jogo de desejo e repúdio.

Entrei numa porta que me levou a um labirinto de objetos; vi uma pulseira de marfim entalhada, linda. Tentei colocar no braço, não passava, não passou pela mão. O marfim gelado em contato com a pele me refrescou do calor da rua. Insisti, forcei um pouco, inutilmente. O vendedor aproximou-se e me surpreendeu. Não o tinha visto, escondido que estava pelos milhares de objetos da loja: lenços de seda, tecidos coloridos pendurados como cortinas. Ele mesmo vestia uma camisa alaranjada, não havia contraste entre figura e fundo. Disse que ia me ajudar. Colocou um fino lenço de seda em minha mão e começou a empurrar a pulseira que devagar escorregava, até um momento em que ficou mais difícil. Ele disse para eu diminuir o mais possível o tamanho da mão, encolhendo-a e fechando; chegou num ponto em que a pulseira entalou, me machucaria se ele continuasse. Fiquei com medo que ela entrasse e não saísse mais.

Ele notou meu movimento de recuo e disse olhando em meus olhos, não tenha medo, um pouco de dor faz bem. Olhei-o espantada. Não sabia se era uma fala erótica ou apenas sádica. Talvez um pouco das duas.

O que o teria levado a dizer o que disse?

Sua loja fica numa ruela um pouco menos movimentada naquele pandemônio de acontecimentos. Vazia quando entrei. Talvez estivesse um pouco entediado, talvez desejasse algo diferente no dia barulhento. Ou estivesse se sentindo só, e apenas querendo conversar. Ou ainda, estivesse com desejo sexual, desejo menos simples, mais indireto, mesclado por certa perversão.

Eu disse que não, que não queria sentir dor.

Ele levantou os ombros, virou as costas, não me deu mais atenção.

Talvez não fosse nada disso, nem desejo, nem tédio, nem solidão, apenas um vendedor tentando vender uma pulseira para uma turista de ossos grandes.

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