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Eulalia

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Eulália fecha as cortinas, pega seu cálice de vinho, o primeiro de uma garrafa inteira que vai esvaziar no decorrer da noite, e liga o som em volume altíssimo. Gosta de ópera italiana, principalmente as românticas que acabam mal: é quando pode chorar, ajudada pelo álcool. Identifica-se com Tosca, Turandot, Madame Butterfly, todas heroínas trágicas, heroínas parecidas como as que atende durante o dia, mulheres com dores de amor que vêm procurar orientação nas cartas de Tarô. Quando Eulália vê tragédia, doença, abandono de homem, desemprego, fica condoída e sempre dá um jeito de falar uma palavra de esperança. É quando deseja inventar um novo sistema de leitura das cartas, alguma coisa que mude o destino das pessoas.

Vive sozinha e vive bem. Às vezes, no entanto, é acometida por sentimentos que não sabe nomear, mas que lhe afetam o corpo: tontura esquisita, quando perde o chão e precisa se apoiar na parede, alergia repentina que lhe deixa a pele das axilas avermelhadas, cegueira de um olho, depois do outro. Os médicos não dão importância às suas queixas. É quando pensa em morar com alguém que tome conta dela.

Deseja prever um terremoto. Até sonha com isso – imagina-se rodeada de gloria e sucesso, liberta finalmente de sua vidinha.

Garrafa de vinho vazia, após os últimos lamentos de Madame Butterflly, Eulália, olhos marejados, vai aguar sua Morinda, arvoreta originária da Índia, que cresce tanto em florestas, como em terrenos rochosos ou arenosos. Planta tolerante a solos salinos e certas condições de seca, é encontrada numa grande variedade de habitats, terrenos vulcânicos, ou mesmo em terra calcária. Coincidência significativa,  sincronicidade, sinal garantido, do terremoto que um dia vai prever.

Eulália vai dormir e sonha que sua Morinda está pegando fogo; na aflição do calor corre com um baldinho de praia para apagar o incêndio, as chamas lambem a arvoreta que se retorce.

Os bombeiros chegam, não conseguem salvar Eulália, adormecida com cigarro aceso.

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