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Apropriação indébita

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No meio do trânsito, rádio ligado em noticiário policial, a vejo caminhando pela calçada. Vestido branco, o tecido parece água, a saia dança ao redor das pernas e dos quadris como se estivesse andando no meio de uma onda de espuma branca do mar. Corpo bem feito modelado com capricho por muito exercício e por Deus. Uma faixa larga azul desenha a cintura em curva agradável, feita para passar a mão. Sapatos amarelos, nem muito altos nem muito baixos envolvem pés que pisam leves e desenvoltos na calçada esburacada. Pelo espelho retrovisor vejo sua nuca à mostra, vontade de sentir o cheiro, aspirar abaixo da raiz dos cabelos dourados.

A saia dança ao redor das pernas e dos quadris, encobrindo e revelando, deixando rastro de beleza e promessas na manhã empoeirada. Saio do carro no meio do trânsito parado; businas raivosas se fazem estridentes. Ela me olha espantada, mas se desarma frente a meu sorriso irresistível.

Já sei, muito em breve vão me acusar de posseiro, de invasor, de apropriação indébita.

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